O Sonho Frustrado da Carne de Coelho no Brasil: Incentivo Público e Falta de Estrutura Levaram ao Fracasso
Um Gigante Adormecido na Cunicultura
Na busca por proteínas mais acessíveis que a carne bovina, o coelho despontou como uma promissora alternativa nas décadas de 1970 e 1980. Sua rápida reprodução, facilidade de manejo e excelente conversão alimentar o tornavam ideal para suprir a demanda crescente das populações urbanas e de baixa renda, além de vislumbrar o mercado internacional.
O entusiasmo não se restringiu aos produtores. O poder público, em diversas esferas, impulsionou a cunicultura. Estados como São Paulo, Pernambuco e Rio de Janeiro implementaram projetos municipais e estaduais, oferecendo cursos, consultorias e distribuição de animais para pequenos criadores. No Paraná, o ambicioso programa “Nosso Coelho”, lançado em 1985 com apoio federal, almejava criar 40 cooperativas e empregar 20 mil produtores familiares, prometendo uma renda considerável para os participantes.
Nutrição e Versatilidade Além da Carne
A carne de coelho se destacava por seu alto teor proteico e de ferro, com teor de gordura significativamente menor que o de suínos e frangos. Além disso, apresentava níveis superiores de cálcio e fósforo. Estudos indicavam que coelhos eram mais eficientes na conversão alimentar do que suínos e bovinos. Contudo, o potencial do coelho ia além da carne: peles para a indústria têxtil, couro para substituição da camurça, farinha a partir de vísceras e fertilizante orgânico dos dejetos compunham um cenário de aproveitamento integral do animal.
“É o animal mais versátil que existe”, afirma Leandro Dalcin Castilha, ex-presidente da Associação Científica Brasileira de Cunicultura. Sua docilidade, ausência de odores fortes e a possibilidade de criação em pequenos espaços, inclusive em áreas urbanas, reforçavam o apelo da cunicultura como uma atividade de baixo impacto e alto potencial.
Do Surto à Descontinuidade: O Fim de um Ciclo
O Brasil chegou a ter quase 1 milhão de cabeças de coelhos nos anos 1980, impulsionado por empresas que forneciam matrizes, equipamentos e ração, além de cursos de formação. A mídia, com reportagens otimistas, projetava o país como um futuro exportador global. No entanto, a euforia inicial esbarrou na falta de infraestrutura.
O crescimento dos criadouros não foi acompanhado pelo desenvolvimento de uma cadeia de abate e processamento. A ausência de frigoríficos especializados limitou o destino da carne ao consumo doméstico ou informal, impedindo a expansão do mercado. Paralelamente, a resistência cultural brasileira, que via o coelho predominantemente como animal de estimação, gerou um estranhamento em relação ao consumo da carne.
A descontinuidade de programas governamentais, como o “Nosso Coelho” no Paraná, após mudanças administrativas, selou o destino do projeto. Sem para quem vender a produção, muitos criadores amargaram prejuízos, vendendo os animais vivos a preços irrisórios ou desistindo abruptamente da atividade. A mensagem que prevaleceu foi a de que a cunicultura era um empreendimento arriscado.
Um Mercado de Nicho e a Busca por um Novo Futuro
Atualmente, a cunicultura no Brasil configura-se como um mercado de nicho, fragmentado e artesanal. A Coelho Real, em Mairinque (SP), é o único abatedouro habilitado para exportação, mas sua produção é insuficiente para a demanda interna. Apesar dos desafios, o Brasil ainda detém potencial para se tornar um exportador de carne de coelho, adaptando a espécie à sua realidade, assim como fez com a pecuária bovina, suína e de aves.
O Censo Agropecuário de 2017 registrou mais de 200 mil cabeças de coelhos em mais de 16 mil estabelecimentos, com a maior concentração na região Sul. A superação da barreira cultural e o investimento em uma cadeia produtiva robusta são passos essenciais para que o sonho da carne de coelho no Brasil possa, quem sabe um dia, se concretizar em larga escala.
Fonte: www.gazetadopovo.com.br



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