Raízen sob pressão: Queda do açúcar e ascensão do etanol de milho desafiam gigante sucroenergética

Raízen enfrenta maré turbulenta com queda no preço do açúcar e avanço do etanol de milho

A Raízen, uma das maiores empresas do setor sucroalcooleiro, está navegando em águas desafiadoras. A combinação de um cenário global de superávit que derruba os preços do açúcar abaixo do custo de produção e a rápida ascensão do etanol de milho como concorrente direto pressionam as margens e a geração de caixa da companhia.

O Dilema do Açúcar e a Busca por Caixa

O mercado de açúcar vive um momento crítico. Especialistas apontam que o preço atual de comercialização está abaixo do custo de produção, que gira em torno de US$ 400 por tonelada, impedindo que os produtores obtenham margens de lucro. Essa situação é agravada por um relatório da XP Investimentos, que descreve o momento como um “círculo vicioso” para as empresas do setor, limitando o fluxo de caixa nos próximos anos.

Para a Raízen, a situação é particularmente delicada devido à sua estrutura financeira. A empresa tem implementado um plano agressivo de venda de ativos desde o final de 2024, visando levantar capital para reduzir sua dívida de R$ 55 bilhões. Até o momento, a companhia já arrecadou cerca de R$ 6 bilhões com a alienação de usinas, negócios de energia solar e sua participação na rede Oxxo. O objetivo é diminuir o endividamento, que atualmente representa 5,3 vezes o seu Ebitda. No acumulado dos nove primeiros meses da safra 2025/26, a Raízen registrou um prejuízo de R$ 4,5 bilhões, antes de ajustes contábeis.

A fim de mitigar os impactos da volatilidade do açúcar, a Raízen tem utilizado instrumentos de hedge, travando os preços de venda de parte de sua produção futura. Para a safra 2025/26, 98% do açúcar já teve o preço garantido a uma média de R$ 2.508 por tonelada (aproximadamente US$ 490). Apesar dessas medidas, o preço médio de venda do açúcar próprio no último trimestre foi de R$ 2.169 por tonelada, uma queda de 12,2% em relação ao ano anterior. Esse cenário impactou diretamente o lucro operacional do segmento de açúcar e etanol, que recuou 33,6% no trimestre, atingindo R$ 1,2 bilhão.

A Mão Invisível dos Canaviais e a Nova Realidade do Etanol

Tradicionalmente, as usinas de cana-de-açúcar ajustam o mix de produção entre açúcar e etanol com base na rentabilidade de cada commodity. No último trimestre, observou-se uma tendência de maior direcionamento para o etanol. Na Raízen, o mix foi de 56% para etanol e 44% para açúcar. Na São Martinho, 51% para etanol e 49% para açúcar. Na Jalles Machado, a proporção foi ainda mais acentuada: 66% para etanol e 34% para açúcar. Essa dinâmica visa reequilibrar os preços futuros ao reduzir a oferta da commodity menos lucrativa.

A Ascensão Imparável do Etanol de Milho

No entanto, essa “mão invisível” do mercado de cana enfrenta uma mudança estrutural com a ascensão do etanol de milho. Atualmente, o etanol de milho já representa cerca de 20% da produção brasileira de biocombustível e demonstra um crescimento médio anual de 33%, superando o ritmo do etanol de cana. Uma das principais vantagens competitivas do etanol de milho é seu custo de produção, que pode ser até 40% menor.

Essa eficiência se deve, em parte, à possibilidade de comercialização de subprodutos como ração animal e óleo de biodiesel. Além disso, a produção de milho no Centro-Oeste, muitas vezes realizada após a safra de soja, otimiza o uso da terra e garante a disponibilidade da matéria-prima. Os dados da ANP confirmam essa tendência: das 28 usinas de etanol em construção no país, 18 utilizarão milho como matéria-prima, contra apenas 6 de cana.

Essa mudança de paradigma já se reflete no topo do setor. Em 2024, a Inpasa, empresa focada em etanol de milho, superou a Raízen em volume de produção, atingindo 3,7 bilhões de litros, enquanto a Raízen produziu 3,1 bilhões. As projeções indicam que, até 2035, o milho poderá responder por quase um terço da produção nacional de etanol. A concorrência do etanol de milho, somada ao preço relativamente baixo do petróleo, que torna a gasolina mais competitiva, cria um cenário onde o preço do etanol luta para se manter em patamares que compensem o baixo valor do açúcar, estabelecendo o custo de produção do etanol de milho como o novo “chão” do mercado.

Fonte: investnews.com.br

Publicar comentário