Selic em Queda: Uma Armadilha para Empresas Endividadas? Gestores Alertam para Riscos Ocultos no Mercado

A promessa de juros menores e a realidade das dívidas corporativas

A expectativa de queda na taxa Selic tem gerado otimismo em alguns setores do mercado financeiro, mas para empresas com alto endividamento, a situação é mais complexa. Gestores alertam que a redução dos juros, por si só, pode não ser suficiente para reverter quadros de fragilidade financeira, especialmente quando o cenário macroeconômico e a gestão interna das companhias não apresentam melhorias significativas.

Indicadores como a relação Dívida Líquida/EBITDA revelam o grau de alavancagem de algumas companhias. A MRV (MRVE3), por exemplo, apresentava um índice de 8,47 vezes no consolidado, considerando suas subsidiárias, enquanto Braskem (BRKM5) e Raízen (RAIZ4) também figuram em conversas sobre endividamento elevado, com índices de 14 vezes e 5,1 vezes, respectivamente. Grupos como JSL e varejistas dependentes de desconto de recebíveis também são citados.

O Custo do Capital e a Aversão ao Risco: Desafios Persistentes

Mesmo com a Selic em trajetória de queda, o custo efetivo da dívida corporativa no Brasil pode permanecer elevado devido aos spreads bancários, elevando o custo anual para perto de 20%. Essa realidade exige retornos irreais para a viabilidade de muitos negócios. A Moody’s destaca que, apesar da capacidade de acesso a financiamento, eventos como o calote da Ambipar (AMBP3) aumentaram a aversão ao risco, resultando em spreads mais altos, especialmente no mercado externo, o que pode penalizar emissores de dívida de alto risco.

Empresas como Braskem e Raízen, segundo analistas, estariam em situação delicada sem o suporte de credores, renegociações e benefícios fiscais. A queda da Selic, nesses casos, é vista mais como um “oxigênio” para adiar o inevitável do que uma solução definitiva.

Alívio Financeiro vs. Turnaround: Uma Distinção Crucial

Especialistas concordam que o início do ciclo de queda da Selic não é uma panaceia. Para empresas que já geram caixa, concluíram investimentos e possuem dívidas pós-fixadas, a redução dos juros pode trazer alívio real nas despesas financeiras e espaço para desalavancagem. No entanto, para companhias que continuam “queimando caixa”, a queda apenas compra tempo, e o desfecho pode envolver reestruturações mais drásticas.

O erro comum, segundo Gustavo Harada, head de alocação da Blackbird Investimentos, é acreditar que juros baixos resolverão todos os problemas. Luciano França, gestor da Paramis Avantgarde, complementa que o corte da Selic pode aliviar o fluxo financeiro, mas não substitui a necessidade de geração de caixa suficiente. A avaliação é que o mercado pode não estar precificando corretamente o risco de crédito dessas empresas mais problemáticas.

O Verdadeiro Gatilho: Política Fiscal e o Horizonte de 2026

Apesar da expectativa de queda da Selic, o principal gatilho para o mercado em 2026, segundo a visão de muitos gestores, reside na política fiscal. O Brasil enfrenta um risco fiscal persistente, com o governo absorvendo liquidez e encarecendo o crédito. A eleição presidencial de outubro é vista como um evento capaz de redefinir expectativas, destravar a parte longa da curva de juros e, consequentemente, alterar o custo de capital de forma mais profunda.

Para o investidor, o cenário exige discernimento. Enquanto ciclos de queda de juros podem impulsionar ações de empresas alavancadas rapidamente, o risco de armadilhas de valor é real. A análise da qualidade do balanço, a geração de valor e a diferenciação entre alívio financeiro e um processo real de turnaround são fundamentais. Empresas com ativos sem valor e sem perspectiva de retorno excedente ao custo de capital podem enfrentar dificuldades intransponíveis, com algumas ficando pelo caminho.

Fonte: www.seudinheiro.com

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