Guerra no Oriente Médio Dispara Alerta para Soja: Conflito Ameaça Fornecimento Global de Fertilizantes e Preços

Escassez de Enxofre e Fosfato: Um Duplo Golpe para a Agricultura

A instabilidade no Oriente Médio, região crucial para o fornecimento global de matérias-primas para fertilizantes, adiciona uma nova camada de preocupação para a cadeia produtiva da soja e outros alimentos. Embora a região represente cerca de 20% do comércio mundial de fosfatos, ela é responsável por quase metade da oferta de enxofre, um componente vital na fabricação de fertilizantes fosfatados. Interrupções no Estreito de Hormuz, uma rota marítima estratégica, podem ter um efeito cascata sobre a produção agrícola global.

Andy Hemphill, analista de mercado de ácido sulfúrico da ICIS, alerta que os efeitos podem se tornar “exponenciais” se o conflito se prolongar. À medida que os estoques de enxofre e ácido sulfúrico se esgotam, os produtores enfrentarão dificuldades crescentes. Isso representa uma má notícia para a oferta global de alimentos, que depende do fosfato para o crescimento de culturas como a soja e a batata, alimentando preocupações com a inflação e a segurança alimentar.

Um Cenário de Oferta Já Apertada e Custos Elevados

A situação atual agrava um cenário de oferta já restrita, mesmo antes do agravamento das tensões no Oriente Médio. Os preços do enxofre atingiram níveis recordes, impulsionados pela demanda da indústria de mineração. Além disso, as exportações russas foram limitadas pela guerra na Ucrânia e por proibições de exportação, enquanto a China priorizou o consumo doméstico de fosfato. As políticas comerciais dos Estados Unidos, incluindo tarifas sobre importações de fosfato do Marrocos, também adicionaram pressão ao mercado.

Josh Linville, vice-presidente de fertilizantes da StoneX Group, descreve a situação como uma piora de um problema já existente. “O fosfato já tinha problemas de sobra antes mesmo de a guerra começar. A guerra apenas piorou uma situação que já era ruim”, afirma. Ele compara a gravidade da situação do fosfato à da ureia e outros nitrogenados, indicando um desafio significativo para os agricultores.

A Ameaça do Enxofre e a Busca por Estabilidade

Veronica Nigh, economista-chefe do The Fertilizer Institute, destaca que o verdadeiro desafio reside na oferta de enxofre. O conflito em Israel já elevou os preços do insumo a ponto de paralisar parte da produção de fosfato. “O enxofre é usado em muitas coisas e, se estivermos num cenário de oferta restrita, fertilizantes podem não ser o primeiro destino desse enxofre”, adverte Nigh, prevendo um problema mais prolongado.

Os contratos de enxofre em Tampa e os preços do fosfato diamônico em Nova Orleans já atingiram níveis recordes e máximas de vários meses, respectivamente. Produtores de fertilizantes sentem a pressão, pois compradores concorrentes, como mineradoras, conseguem oferecer preços mais altos. O impacto nos preços dos fertilizantes fosfatados pode ser sentido já em abril, com a entrada da Índia no mercado para sua produção doméstica, o que pode levar o mercado a um “modo de pânico”.

Apelos por Menos Tarifas e a Realidade da Produção

Diante desse cenário, entidades do setor agrícola nos Estados Unidos intensificam os apelos para maior estabilidade no mercado de fertilizantes. Há pressão para que o governo americano suspenda tarifas sobre fertilizantes do Marrocos, argumentando que os preços elevados e os riscos geopolíticos já diminuem a necessidade de medidas protecionistas. A American Farm Bureau Federation e outras grandes associações agrícolas pediram a suspensão temporária dessas taxas.

Enquanto isso, a dificuldade de acesso e os custos elevados já impactam a demanda. David Delaney, CEO da Itafos, projeta uma queda de cerca de 20% no uso de fosfato nos Estados Unidos nos 12 meses encerrados em junho. “Vai continuar apertado na primavera, no verão e no outono”, prevê Delaney. Ele alerta que, com um corte de 20% na demanda, os estoques podem se esgotar completamente ao final da temporada, indicando um futuro de incertezas para a agricultura.

Fonte: investnews.com.br

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